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Falsos sequestros de crianças em SC assustam famílias e atrapalham trabalho da polícia

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Alertas sobre quadrilhas que estariam agindo com sequestros de crianças em Santa Catarina ganharam força nos últimos dias nas redes sociais. Áudios que relatam raptos infantis feitos por grupos armados para a venda de órgãos, ou que descrevem a circulação de pessoas suspeitas em determinados bairros na busca por seus alvos, são compartilhados massivamente entre famílias que moram em diferentes cidades do Estado.

Graves, as informações já alarmaram a população em cidades do Oeste e do Sul catarinense, do Vale do Itajaí e, mais recentemente, da Grande Florianópolis.

No Oeste de SC, os áudios viralizaram em ao menos duas cidades: Chapecó e Videira. Já no Sul catarinense, as mensagens foram compartilhadas principalmente em Tubarão, com relatos, também, em Criciúma, Morro da Fumaça, Balneário Rincão, e Jaguaruna.

Em ambas as regiões, a Polícia Civil investigou as denúncias e concluiu que os suspeitos seriam pessoas desconhecidas da comunidade, mas não criminosas. Em um dos casos, o delegado responsável pela investigação chegou a divulgar um vídeo esclarecendo os fatos. Não houve registros de sequestros nessas cidades.

Já na região da Capital catarinense, um áudio recente com informações bastante graves tem assustado os moradores. Uma pessoa descreve a ação de uma quadrilha, que teria invadido um shopping na cidade de São José, e raptado dos braços da mãe a criança escolhida. O áudio diz que a informação é de um policial e passa a ser compartilhado como alerta entre conhecidos e desconhecidos.

A informação chegou à Polícia Civil na quarta-feira (20). Procurada, a delegada regional de Palhoça, Michele Alves Correa Rebelo informou que essa suposta ameaça é falsa:

– Não recebemos nenhuma denúncia, quanto mais um registro dessa natureza. Se algo dessa gravidade tivesse realmente ocorrido, já teríamos tomado providências.

Segundo a delegada, equipes policiais atuam na área comercial citada no áudio, onde não houve qualquer ação criminosa envolvendo crianças.

– Nenhuma movimentação ocorreu. E mesmo que ocorresse, há câmeras por todos os lados, além dos policiais – assegura.

Em novembro do ano passado, mensagens parecidas já tinham assustado os moradores do Alto Vale do Itajaí. Na região, as mensagens descreviam carros suspeitos de marcas, tamanhos e cores diferentes. Esses veículos seriam usados, conforme as mensagens, pelos supostos sequestradores, que tinham como objetivo o tráfico de órgãos.

À época, a Polícia Civil emitiu uma nota onde garantia que acompanhava todas as publicações e os compartilhamentos. Nela, a Delegacia Regional de Rio do Sul também explicava que nenhum boletim de ocorrência sobre o assunto tinha sido registrado até então, em cidades da região.

Mais cautela ao compartilhar informações falsas

Áudios ou pequenas mensagens de texto compartilhados em grupos do WhatsApp e em outras redes sociais podem gerar pânico em comunidades inteiras, pela gravidade dos fatos narrados, além de movimentar equipes policiais. E, na maioria das vezes, essas informações são falsas. Por esse motivo, a polícia faz apelos recorrentes à população:

– Acontece que muitas vezes compartilham essas informações sem nem sequer ter a preocupação de saber se é verdadeiro ou não o que recebeu. Então não compartilhem fatos dessa gravidade, quando recebidos em mensagens sem procedência – pede a delegada regional de Palhoça, Michele Alves Correa Rebelo.

Conforme a delegada, o ideal é procurar na imprensa se já há notícias veiculadas sobre o relato recebido nas redes. Se não encontrar, o ideal é aguardar mais um dia, orienta a delegada, ou mesmo ligar para uma delegacia.

– É importante aguardar e não compartilhar. Ter um pouco de paciência, ter mais cuidado com o que se recebe e com o que se compartilha. Estamos em um momento em que há informações falsas circulando e elas prejudicam muito o trabalho policial. Não sei qual a motivação de causar esse temor público – desabafa a delegada.

Divulgação falsa é crime

Divulgar informações falsas sobre crimes que não existiram é um delito previsto no artigo 340 do Código Penal e prevê até seis meses de detenção ao responsável, além de multa. Isso porque, toda a denúncia, especialmente as mais graves como as de sequestros de crianças, serão investigadas pela polícia.

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Significa movimentar todo um aparato do Estado, que poderia estar atuando em investigações de casos reais, sem necessidade.

– No caso do sequestro em Palhoça – da menina de 4 anos sequestrada dentro de casa e encontrada dois dias depois em Florianópolis – uma pessoa vai responder por falsa comunicação de crime, porque fez uma denúncia falsa e nos mandou para outro destino, que não onde estava a criança – exemplifica Michele.

Em um caso registrado no Sul de SC, a 5ª Delegacia Regional de Tubarão divulgou nota orientando aos moradores que não compartilhassem mais os áudios e vídeos contendo imagens de veículos ou de pessoas apontadas pela população como suspeitas por crimes contra crianças, “uma vez que o crime narrado nos áudios não procede e a prática de tal conduta pode constituir crime de calúnia, entre outros, como falsa comunicação de crime e denunciação caluniosa”.

Cuidados com as crianças

Um mês após trabalhar em um caso de sequestro na Grande Florianópolis, que repercutiu em rede nacional, a delegada regional de Palhoça, Michele Alves Correa Rebelo, alerta para os cuidados com crianças:

– Não expor a criança em redes sociais.

– Não divulgar endereço da casa ou da escola dos filhos nas redes.

– Configurar para privado nas redes sociais as fotos, os vídeos e qualquer informação sobre a família. 

– Estar diligente. Todo o cuidado com as crianças é importante.

Em caso de suspeitas:

– Anotar a placa de um carro suspeito.

– Denunciar suspeitas ao 181 de forma anônima.

– Registrar a suspeita pela internet, como fato atípico.

– Se dirigir a qualquer unidade policial.

Por Clarissa Battistella/NSC